No workshop de apresentação de elenco no Projac, há duas semanas, o clima de primeiro dia de aula era gritante, com rodas de altinho, dedilhadas em um violão e muita troca de figurinhas. Um almoço caprichado, com o brigadeiro que tanto agradou a Fiuk como sobremesa, precedeu a preleção do "técnico" Mário Márcio Bandarra. O diretor retoma a parceria com o autor Ricardo Hofstetter, formando mais uma vez a dupla responsável pela fase mais bem-sucedida em audiência e críticas de "Malhação", a da Vagabanda, em 2003 e 2004. O discurso de Bandarra - direto, mas com um tom acolhedor - dava as boas vindas aos novatos, numa lista que reúne Fiuk e a nova mocinha da trama, a atriz Christiana Peres (intérprete de Cristiana), e vários outros nomes. Jovens parentes de atores, como Luciana Didone (irmã de Juliana) e Julia Bernat (filha de Soraya Ravenle), além de veteranos como Vera Zimmerman e Tarcísio Filho, também estão no grupo.
- Juntamos todo o elenco para fazer exercícios de improvisação com a coach Andrea Cavalcanti, e para eles se enturmarem também. Daí começamos a fazer entrevistas e muitas dinâmicas de grupo, para ver quem funcionava com quem. Só depois vieram os testes com texto - explica o diretor.
Todos os testes com texto foram vistos por Hofstetter. Mas para mostrar ao autor do que mais seus "calouros" são capazes, a solução encontrada por Bandarra e por Andrea foi fazer do workshop um pequeno show de talentos. Foi assim que Daniel Belmonte mostrou sua desenvoltura no stand-up comedy: na trama, ele será Reco, o cara mais engraçado da turma. Fora da ficção, Bimba (Cristiano Sauma), que será visto como o pegador do novo colégio, dá show no sapateado. Vocalista da banda de rock Hori, Fiuk cantou "Só você", sucesso na voz de seu pai. Tem até um violinista na trupe.
- O autor precisa saber que tem um cara bom de humor, outro que toca violino, para aproximar cada vez mais o texto da realidade deles - avalia Bandarra, que depois de encarar veteranos como Murilo Benício na série "Força-tarefa", volta ao delicado universo dos atores novatos e, muitas vezes, inexperientes. - A vantagem do diretor é que ele é um telespectador privilegiado, que interfere na história. Mas o modo de dirigir não muda, seja um ator jovem ou um ator experiente. É sempre a mesma coisa, porque direção é conversa, papo. Às vezes você briga, mas depois pede desculpas. Como essa turma vem com um tesão danado, tenho, sim, que dar uma dose de carinho extra, porque eles estão começando. É uma responsa que vai muito além da área artística.
E diante de tanta responsa, nada mais adequado do que dar aos jovens atores uma estrutura para que eles se aprimorem - afinal, "Malhação" é um investimento a longo prazo. Muitos sumiram com o tempo, mas outros, como Marjorie Estiano e Cauã Reymond, despontaram para trabalhos considerados maiores bem ali, na novela da tarde. Ao longo das temporadas, as sessões semanais de estudo, apelidadas pelos atores de "aulões", são rotineiras. Quem não grava, estuda; quem grava, leva dever de casa: é assim que funciona a escola real da novela. Improviso, interpretação, técnicas corporais e leitura, que inclui textos clássicos e até de filosofia, estão sempre na agenda do elenco. No início de cada temporada, ou "ano letivo", convidados são convocados. Desta vez, os atores já tiveram aulas com a diretora de teatro Ana Kfouri e assistiram a palestra motivacional da chef Roberta Sudbrack.
Traçando paralelos entre sua vida na cozinha e o cotidiano dos novatos - "hoje estamos no jornal, amanhã estamos embrulhando peixe" - Sudbrack destacou, entre outros pontos, a importância de saber recomeçar quando algo dá errado. Para ilustrar sua "lição", ela contou sobre um jantar preparado para Fidel Castro, em que todas as sobremesas, à base de sorvete, foram parar no lixo, derretidas diante da overdose verbal do ex-chefe de estado de Cuba.
- "Malhação" começou quando eu também estava repleta de sonhos e expectativas, assim como vocês - explicou a chef, que finalizou a tarde com um prato à base de quiabo.
Para Hofstetter, que diz ter o cuidado de não pesar a mão, não ser ingênuo demais e nem passar conceitos errados, é difícil saber quem vai cair no gosto do público. Cada caso é um caso, avalia:
- Acho que os atores que já chegam com uma formação teatral levam alguma vantagem. O teatro é, indiscutivelmente, uma grande escola. Mas muitos que nunca fizeram teatro na vida também arrebentam quando chegam na TV. É um conjunto de coisas: talento, carisma, senso de oportunidade, sorte, formação, família... - acredita.
O trabalho de preparação, comandado por Andrea Cavalcanti, teve o improviso como foco no início das gravações da temporada, a pedido da direção.
- Durante quatro dias, fizemos encontros intensos para desenvolver a espontaneidade. Depois, trabalhamos a visão deles sobre os personagens. Só então caímos no texto - conta Andrea, que já está em sua sétima temporada como "professora" na novela nos bastidores. - Além dos aulões semanais, eles também têm classes individuais ou em pequenos grupos. No caso das personagens Cristiana e Nanda (Giovana Echeverria), que serão irmãs, tentamos criar cumplicidade entre as atrizes.
Para quem diz que é na prática que se aprende, Élida Muniz, ex-"TV Globinho", lembra a importância da teoria. Ela vive a modelo Tati, uma das melhores amigas de Bernardo.
- É incrível a estrutura que nos dão. Nunca fiz a Oficina de Atores, como a Chris Peres, mas ela diz que lá era bem parecido. Temos aulas de consciência corporal e até de dicção, com uma fonoaudióloga. Aprendemos muito na prática, mas essa preparação inicial é fundamental.
Fonte: O Globo
